Sociedade

História

Sociedade Portuguesa de Ginecologia. No início foi assim...

Carlos Freire de Oliveira

1 – Os precursores da Sociedade Portuguesa de Ginecologia

A 19 de Janeiro de 1954 foram aprovados por despacho ministerial os Estatutos da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Ginecologia (SPOG), a primeira sociedade científica criada em Portugal no âmbito da Obstetrícia e da Ginecologia.

Entre 1954 e 1975 a atividade organizada, no âmbito de uma sociedade científica, era da exclusiva responsabilidade da SPOG. Assim, tem toda a justificação citarmos a reunião da SPOG, em conjunto com a Sociedade Portuguesa de Pediatria, que decorreu em Coimbra nos dias 4 e 5 de Julho de 1970, de cujo programa destacamos uma sessão dedicada ao "Endométrio" (moderada pelo Professor Ibérico Nogueira), na qual participou maioritariamente a "Escola de Ginecologia de Coimbra". Curiosamente o programa da reunião incluía 6 temas, sendo cinco dedicados à obstetrícia e neonatalogia e apenas um à ginecologia.

Até finais do século XIX, o ensino e a prática da Ginecologia exercia-se de forma não autónoma no âmbito da Cirurgia. Em Coimbra, em 1905, o Professor de Anatomia e Cirurgia, Sousa Refóios, fundou a "Clínica da Mulher" que dirigiu. Mais tarde a direção desta Clínica foi entregue aos Professores Daniel de Matos, Álvaro de Matos e Novais e Sousa.

Em meados da década de 50 do séc. XX o Professor Ibérico Nogueira assumiu o ensino e a direção do Serviço de Ginecologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) e o Professor Albertino de Barros o ensino e a direção do Serviço de Obstetrícia (Maternidade Dr. Daniel de Matos).

A partir dessa altura a Ginecologia atinge a sua independência, graças à visão estratégica, iniciativa e dinamismo do Professor Ibérico Nogueira, sendo reconhecida, a nível nacional, a "Escola de Ginecologia de Coimbra". Entretanto, alguns (poucos) colegas dos grandes hospitais de Lisboa e Porto, conseguiram emancipar a Ginecologia da Cirurgia e da Obstetrícia. Foram então criados os Serviços de Ginecologia do Hospital de S. João (1959), da Maternidade Júlio Dinis e do Hospital de Sto. António, no Porto. Em Lisboa manteve-se, no Hospital de Santa Maria um serviço conjunto de Obstetrícia e Ginecologia, e na década de 60 foram criados serviços separados de Ginecologia e Obstetrícia na Maternidade Dr. Alfredo da Costa e noutros hospitais da capital.

A separação das duas especialidades, Ginecologia e Obstetrícia, passou a ser um facto consumado, inclusive a nível da Ordem dos Médicos, onde existiram dois Colégios distintos. As reuniões científicas também passaram a ser ora no âmbito da Obstetrícia, ora no campo da Ginecologia, pese embora a SPOG continuasse a realizar reuniões científicas no âmbito das duas especialidades e a participar nos Congressos Luso-Espanhol de Obstetrícia e Ginecologia .

2. Os primeiros passos da SPG

A proliferação de reuniões científicas no âmbito das duas especialidades e a diferenciação cada vez maior da Ginecologia levou a que um grupo de especialistas se reunisse, na Sala de Sessões da Maternidade Bissaya-Barreto, em Coimbra, no primeiro semestre de 1975, para aprovar a criação da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, cujos estatutos foram publicados na III Série nº 149 do Diário do Governo, no dia 1 de Julho de 1975 e divulgados no dia 8 de Julho de 1975 no "O Primeiro de Janeiro". A primeira Assembleia Geral foi convocada por Aurélio Lopes Ferreira e Carlos Freire de Oliveira para o dia 18 de Outubro de 1975, na Maternidade Bissaya-Barreto. Nessa Assembleia foram considerados 76 membros fundadores, foi determinada a quota a pagar e foi eleita a primeira Comissão Coordenadora (esta designação foi influenciada pelo momento político que se vivia em Portugal e anos mais tarde passou a chamar-se Direção). Esta foi constituída por : Henrique Miguel Resende Oliveira (presidente), Albino Aroso Ramos (vice-presidente), José Milheiro Fernandes (tesoureiro), Aurélio Lopes Ferreira (secretário-geral), Carlos Freire de Oliveira (vogal), Antero Ferreira Torres (vogal) e Joaquim Pinto de Oliveira (vogal). Na sequência, no dia 8 de Novembro de 1975, foi constituído o Conselho Consultivo, presidido por Agostinho Almeida Santos, e foi aprovado o regulamento do Boletim da SPG.

A primeira Comissão Coordenadora exerceu funções durante 3 anos (1975/78) e, embora tendo participado ativamente em todas as atividades, nomeadamente como redator do Boletim da SPG, gostaria apenas de destacar que, neste primeiro triénio, se realizaram 23 reuniões científicas mensais ordinárias e uma reunião extraordinária, para além do 1º Congresso Português de Ginecologia, que decorreu em Coimbra de 4 a 8 de Junho de 1978. O logótipo do congresso representava o esquema do útero, segundo um amuleto em bronze da antiga Grécia. Foi da autoria do Dr. Aurélio Ferreira e foi reproduzido num carimbo comemorativo dos CTT, que foi aposto na correspondência, em Coimbra, no dia 4 de Junho de 1978 .

Apesar do envolvimento, com entusiasmo, de todos os membros da Comissão Coordenadora o grande "motor" do arranque da Sociedade foi o seu secretário-geral, Dr. Aurélio Lopes Ferreira.

3. A segunda e terceira Comissões Coordenadoras da SPG

No dia 11 de Novembro de 1978 reuniu, pelas 15 horas, na Sala de Sessões da Maternidade Bissaya-Barreto , em Coimbra, a Assembleia Geral ordinária da SPG. Foram eleitos para a segunda Comissão Coordenadora da SPG: Carlos Freire de Oliveira (presidente), Antero Ferreira Torres (vice-presidente), Aurélio Lopes Ferreira (secretário geral), Carlos Sousa Marques (tesoureiro), José Meneses e Sousa (vogal), José Martinez de Oliveira (vogal) e João Alves Pimenta (vogal).

Das atividades desenvolvidas no segundo triénio da SPG destacamos as que merecem maior notoriedade.

Ocorreram 21 reuniões científicas distribuídas 6 em Coimbra, 6 em Lisboa, 5 no Porto e 1 em cada um dos seguintes locais: Beja, Viseu, Alvor e Póvoa do Varzim. Destas reuniões destaca-se o Simposium sobre Infeção e Dor em Ginecologia (Alvor) e o Simposium sobre Detecção e Prevenção do Cancro Ginecológico (Póvoa do Varzim).

A alteração ocorrida na publicação regular da SPG, que deixou de ser "Boletim" para se designar "Ginecologia e Medicina da Reprodução" passou a dispor de um Conselho Redatorial composto por Aurélio Lopes Ferreira, redator principal, e 6 redatores adjuntos: Domingos Duarte, Helena Martinho Pinto, Sidónio Matias, Zulmira Alves, Manuel Meirinho e Isabel Miranda.

Saliente-se ainda que, no final do triénio, a SPG contava com 396 sócios, 125 do distrito de Lisboa, 92 do distrito de Coimbra, 90 do distrito do Porto e os restantes distribuídos pelo país, incluindo as Regiões Autónomas dos Açores e Madeira.

Em 1979 a Comissão Coordenadora da SPG organizou um concurso para a escolha do logótipo da Sociedade. Concorreram 28 trabalhos, reproduzidos na figura seguinte

 

Na sequência de uma determinação da Ordem dos Médicos, que extinguiu a especialidade de Ginecologia como especialidade diferenciada e a fundiu com a Obstetrícia numa especialidade única de Obstetrícia-Ginecologia, a Comissão Coordenadora da SPG entendeu dever tomar uma atitude sobre esta decisão, lesiva dos interesses da Ginecologia, como especialidade autónoma, promovendo no dia 7 de Junho de 1980, no Palácio de S. Marcos, com base num parecer que entretanto elaborou, uma reunião nacional Para esta reunião foram convidados, além dos membros da Comissão Coordenadora da SPG, o presidente da SPOG, o presidente da SPMR, os diretores dos serviços de ginecologia dos hospitais centrais, os membros do último Colégio da Especialidade de Ginecologia da Ordem dos Médicos e os membros do novo Colégio de Obstetrícia e Ginecologia da Ordem dos Médicos. Após uma longa análise e discussão, que durou todo um dia, foi elaborado um extenso documento cujas três conclusões mais importantes foram: 1) É necessário que além da especialidade conjunta de Obstetrícia-Ginecologia, ora existente, e do respetivo título de especialista, a Ordem dos Médicos reconheça a especialidade e o título de especialista de Ginecologia; 2) É necessário que na carreira médica hospitalar volte a ser criada a especialidade de Ginecologia, independentemente de poder continuar, em simultâneo, a especialidade conjunta de Obstetrícia–Ginecologia; 3) É necessário que haja a nível dos hospitais centrais e distritais serviços independentes de Ginecologia e de Obstetrícia.

De 14 a 18 de Junho de 1981 decorreu, em Coimbra, o II Congresso Português de Ginecologia que teve como tema oficial o "Endométrio", abordado em 19 conferências e 22 comunicações, com um total de 324 congressistas. Mais uma vez o êxito desta atividade científica foi alcançado.

No dia 19 de Dezembro de 1981 decorreu, na Sala de Sessões da Maternidade Bissaya-Barreto, a Assembleia Geral ordinária da SPG para apresentação dos relatórios de atividades e de contas referentes ao triénio 1979 – 1981, eleição de novos membros da SPG e eleição da Comissão Coordenadora para o triénio 1982-1984. Foi então reeleita a direção anterior para um novo mandato.

Neste terceiro triénio da SPG mantiveram-se as reuniões científicas mensais no segundo sábado de cada mês, com exceção dos meses de férias de Julho, Agosto e Setembro, bem como dos meses de Abril e Outubro que, entretanto, foram cedidos à Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução que, segundo escreveu o Dr. Aurélio Ferreira no relatório do triénio, "... por acordo entre ambas as sociedades e com a finalidade de através desse entendimento, não saturar o pequeno grupo que entre nós se interessa realmente pelas duas sociedades".

Nos anos de 1982 a 1984 ocorreram 21 reuniões científicas, entre as quais se destaca um "Simposium sobre amenorreias", uma reunião conjunta com a Sociedade Portuguesa de Citologia, uma reunião sobre cancro da mama (desde a fundação da SPG que a patologia mamária passou a fazer parte dos temas científicos abordados) e um "Simposium sobre Urologia Ginecológica" .

De 11 a 14 de Junho de 1984 aconteceu, em Coimbra, o "III Congresso Português de Ginecologia" tendo sido convidado para Presidente Honorário o Professor Albert Netter, de Paris.

Em Dezembro de 1984 a SPG contava 556 membros efetivos e o incansável e grande dinamizador da sociedade – Dr. Aurélio Lopes Ferreira termina o "Relatório da Atividade e Contas da SPG no Triénio de 1982 a 1984" escrevendo "... Em Portugal, a ginecologia continua a ser uma especialidade satélite de muitos interesses que não são os da medicina, nem os das doentes. Mas a Sociedade Portuguesa de Ginecologia, sempre presente na defesa dos interesses da ginecologia portuguesa, conseguiu chegar aos 9 anos de vida. E vai continuar..."

Aquando da criação da SPG em 1975 um dos grandes "patrões" da Obstetrícia- Ginecologia em Portugal, no final da primeira reunião científica felicitou-nos pela iniciativa mas acrescentou: "... Fizeram a primeira reunião, vão fazer mais duas ou três e depois fartam-se..." Felizmente que este presságio não vingou e a SPG já organizou mais de 180 reuniões científicas e no XIII Congresso de Ginecologia comemorou o seu 40º aniversário.