Sociedade

1ª Assembleia Geral

No dia 18 de Outubro de 1975 realizou-se, na Maternidade Bissaya-Barreto, em Coimbra, a primeira assembleia geral da Sociedade Portuguesa de Ginecologia.

 

Foram eleitos em primeiro lugar, por aclamação, para a Mesa, os membros da Direcção da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Ginecologia que se encontravam presentes, o Prof. Mário Mendes (Coimbra), que presidiu, e os Drs. António Pratas Ferreira (Lisboa), Antero Ferreira Torres, em representação do Dr. Albino Aroso (Porto) e Vicente Nogueira Souto (Coimbra).

 

O presidente da Mesa, Dr. Mário Mendes, iniciou os trabalhos, pronunciando algumas palavras de saudação aos presentes e à Sociedade Portuguesa de Ginecologia, em seu nome pessoal e em nome da Direcção da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Ginecologia, a que também preside.

 

Em cumprimento do primeiro ponto da ordem de trabalhos - Apresentação dos problemas ligados à criação da Sociedade -, falou o Dr. Aurélio Lopes Ferreira (Coimbra), cujo texto Integral publicamos a seguir:

 

"As nossas primeiras palavras são para os colegas presentes: palavras de regozijo por terem vindo em tão grande número - ou pelo menos, em número maior do que esperávamos -, a dizer-nos que estamos no caminho certo, a dizer-nos que não estamos sós na intenção de pugnar por uma ginecologia mais evoluída e mais diferenciada.

 

A partir deste momento, a Ideia de um pequeno grupo inicial passa a ser o propósito de muitos, aglutinados no desejo comum de conseguirem uma ginecologia hoje melhor que ontem, amanhã melhor que hoje (...) a finalizar esta breve nota de abertura, fazemos questão de expressar ainda toda a simpatia e todo o carinho que neste momento especial nos merece a Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Ginecologia.

 

Falar da Sociedade Portuguesa de Ginecologia implica tocar, ainda que ao de leve, o problema da junção ou da separação das especialidades de ginecologia e obstetrícia.

 

Entendemos a este respeito que não é a discussão teórica, demasiadamente fácil, mas também demasiadamente estéril, que pode levar a uma conclusão; muito mais forte que essa discussão, cremos que é a própria afirmação prática e diária de cada uma dessas especialidades.

 

Considerada do ponto de vista puramente teórico, diríamos mesmo, etimológico, poder-se-ia dizer que a ginecologia, sendo a ciência que estuda a mulher, na saúde ou na doença, poderia e deveria incluir a obstetrícia apenas como um dos seus capítulos, em que se trataria do caso particular da mulher perante o estado também particular da gravidez.

 

Tal raciocínio seria desastroso, por poder levar a conclusões que são menos verdadeiras, tanto do ponto de vista da realidade actual, como até mesmo, do ponto de vista histórico.

 

A obstetrícia deve ter sido a primeira especialidade da história da humanidade.

 

No raiar da história da medicina, quando ao Homem não teria ainda surgido a ideia de tentar curar os seus males, o parto e consequentemente a assistência ao parto ter-se-ão imposto pela premência e pelo carácter inadiável de uma solução.

 

De características naturalmente muito toscas, muito rudimentares, evoluindo na penumbra da ignorância de muitos séculos, a obstetrícia, a cirurgia e a clínica geral terão sido durante quase toda a história da civilização, os únicos ramos da Medicina.

 

Destes três ramos, por um processo natural de progresso e de crescente aquisição de conhecimentos, ter-se-ão diferenciado uma a uma as várias especialidades.

 

E dessa maneira ter-se-á diferenciado também a ginecologia, que nos aparece na cronologia dos factos como irmã mais nova da obstetrícia e não como fonte de onde esta tivesse partido... A ginecologia é uma especialidade que, se assenta anatomicamente no aparelho genital feminino, raciocina e actua quase sempre na base da mulher considerada como um todo e não na base de meia dúzia de órgãos mais ou menos específicos.

 

É a especialidade das infecções, dos tumores, das malformações do aparelho genital feminino, das dores, dos corrimentos, das hemorragias; mas é também a especialidade que se ocupa da esterilidade, da contracepção, do planeamento familiar, da sexologia, da endocrinologia, da psicossomática.

 

Cremos não exagerar, ao afirmarmos que a ginecologia sofreu nos últimos anos uma explosão de motivos de interesse, que a coloca aos nossos olhos como uma das mais aliciantes matérias de estudo e de exercício clínico diário.

 

Foi neste quadro de apaixonado interesse pela especialidade que surgiu em alguns de nós a ideia de nos reunirmos periodicamente, para discutir os nossos casos, para nos actualizarmos, para conviver.

 

O ambiente era propício, pois existia então, e continua a existir, franca e leal camaradagem entre os ginecologistas dos três hospitais de Coimbra: Hospital da Universidade, Centro Hospitalar e Instituto Português de Oncologia.

 

Daí a ideia de criar um núcleo, a que inicialmente iríamos chamar Clube de Ginecologia de Coimbra.

Começávamos a ter a grata satisfação de encontrar noutras latitudes companheiros com os mesmos problemas e com a mesma necessidade de mais ampla realização profissional; em contrapartida, a ideia primitiva do Clube de Ginecologia de Coimbra começava a perder interesse, pois se tornava cada vez mais aliciante alargar a ideia a outros centros, começando a formar-se assim a hipótese de criar um clube de ginecologia de âmbito mais vasto.

 

E foi então que no espírito de alguns surgiu quase simultaneamente a grande opção: porque não, Sociedade Portuguesa de Ginecologia? Lançada a ideia base de uma Sociedade Portuguesa de Ginecologia, o resto foi apenas o percorrer dos passos necessários para a concretizarão dessa ideia, aproveitando as facilidades concedidas pelo Decreto-Lei nº 594, de 7 de Novembro de 1974, que institui o "direito à livre associação como uma garantia básica da realização pessoal dos indivíduos na vida em sociedade".

 

Um núcleo inicial reuniu-se em Coimbra no dia 13 de Março de 1975, para discutir e aprovar os estatutos.

Depois, foi apenas o cumprir do ritual burocrático indispensável para a legalização da Sociedade, adquirindo esta a sua personalidade jurídica em 10 de Julho de 1975, com o depósito dos estatutos no Governo Civil de Coimbra.

 

A Sociedade Portuguesa de Ginecologia aí fica para cumprir uma missão que desejamos seja útil e proveitosa para nós, como profissionais e intelectuais de uma especialidade médica e para a sociedade portuguesa, que pretendemos servir.

 

A Sociedade Portuguesa de Ginecologia será o que nós formos e o que nós quisermos que ela seja.

 

Na discussão do 4º ponto da ordem de trabalhos - determinação da quota a pagar pelos membros fundadores e pelos membros efectivos - foi aquela fixada em 500$00 anuais.

 

E por fim, no último ponto da ordem de trabalhos, foi eleita por 60 votos a favor e três abstenções, a única lista apresentada para a Comissão Coordenadora, com a seguinte constituição:

 

Presidente

Prof. Henrique Miguel Resende de Oliveira
(Universidade da Universidade de Coimbra)

Vice-Presidente

Dr. Albino Aroso Ramos
(Hospital de Santo António, Porto)

Secretário-geral

Dr. Aurélio da Silva Lopes Ferreira
(Centro Hospitalar de Coimbra)

Tesoureiro

Dr. José Maximiano de Campos Milheiro Fernandes
(Instituto Português de Oncologia, Lisboa)

Vogais

Redactor do Boletim

Prof. Carlos Manuel Domingues Freire de Oliveira
(Hospital da Universidade de Coimbra)

Dr. Antero Ferreira Torres
(Hospital de Santo António, Porto)

Dr. Joaquim António Pinto de Oliveira
(Centro Hospitalar de Coimbra)